Papel da Dapagliflozina na estenose aórtica após TAVI.

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              Mesmo após o implante de válvula aórtica por cateter (TAVI), muitos pacientes idosos continuam sob risco de hospitalização por insuficiência cardíaca (IC). Isso ocorre porque a estenose aórtica prolongada provoca alterações estruturais e metabólicas no miocárdio (fibrose e remodelamento ventricular) que não são totalmente revertidas após a intervenção. Nesse contexto, o estudo DapaTAVI (Dapagliflozin in Patients Undergoing Transcatheter Aortic-Valve Implantation), recentemente publicado no New England Journal of Medicine e apresentado no ACC 2025, avaliou o papel da Dapagliflozina como estratégia terapêutica complementar no pós-TAVI.

              O DapaTAVI foi um ensaio clínico randomizado, multicêntrico, que envolveu 39 centros na Espanha. O objetivo foi avaliar se a medicação poderia ajudar a reduzir mortes e piora da IC no ano seguinte a TAVI. Foram incluídos 1.257 pacientes com média de idade de 82,4 anos (49,4% mulheres), todos com estenose aórtica grave submetidos ao TAVI e com histórico de IC, além de pelo menos um fator de risco adicional: diabetes, disfunção sistólica (FEVE ≤ 40%) ou insuficiência renal (TFGe 25-75 mL/min/1,73m²). Cerca de 18% dos pacientes incluídos apresentavam FEVE ≤ 40%),, 60% tinham hipertrofia moderada/importante e o BNP médio foi de 6.324 pg/mL no grupo Dapagliflozina. Os pacientes foram randomizados para receber Dapagliflozina 10 mg/dia ou tratamento padrão. O desfecho primário foi composto por morte por qualquer causa ou piora da IC (internação ou visita urgente) em até 12 meses.

              Quais os principais resultados? Em relação ao desfecho principal do estudo, houve uma redução de 20,1% no grupo controle para 15,0% entre os pacientes que receberam Dapagliflozina, representando uma redução relativa de 28% no risco. Importante destacar que as curvas se separaram cedo, já no primeiro mês. Essa diferença foi impulsionada principalmente pela menor taxa de piora da IC, que passou de 14,4% no grupo controle para 9,4% no grupo Dapagliflozina. Não houve diferença estatisticamente significativa em relação à mortalidade total (7,8% versus 8,9%), embora que huvesse uma tendência favorável ao uso do medicamento. Esses resultados se mantiveram consistentes em diversos subgrupos analisados, com tendência de maior benefício clínico nos homens, idade ≥ 80 anos, FEVE >40%, presença de diabetes, fibrilação atrial, disfunção renal, uso de inibidores do sistema renina-angiotensina (IECA/BRA) ou diuréticos. 

              Em relação à segurança, a Dapagliflozina foi, em geral, bem tolerada; os eventos colaterais mais frequentes foram infecção genital (1,8% vs 0,5% no grupo controle; p = 0,03) e hipotensão sintomática (6,6% vs 3,6%; p = 0,01). Esses eventos, embora relativamente infrequentes, foram clinicamente relevantes pois levaram à descontinuação do tratamento em cerca de 17% dos pacientes ao longo de um ano.

              As limitações do estudo incluem o desenho aberto, o seguimento curto de 12 meses, a baixa taxa de eventos inicialmente prevista, a inclusão de uma amostra de pacientes espanhóis predominantemente brancos. A taxa de descontinuação da Dapagliflozina foi considerável, o que pode impactar a generalização e interpretação dos resultados.

              Os resultados do DapaTAVI representam um marco importante por ser o primeiro estudo randomizado a demonstrar o benefício clínico de uma medicação específica na redução de eventos em pacientes de alto risco no pós-TAVI. Esses achados reforçam a importância de uma abordagem integrada entre a terapia intervencionista e o tratamento farmacológico na otimização do cuidado nessa população de alto risco de IC.

Referência:

Raposeiras-Roubin, Sergio et al. “Dapagliflozin in Patients Undergoing Transcatheter Aortic-Valve Implantation.” The New England journal of medicine, 10.1056/NEJMoa2500366. 29 Mar. 2025, doi:10.1056/NEJMoa2500366.