Estudo SOUL: Semaglutida Oral em Pacientes com Diabetes Tipo 2 de Alto Risco

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Aproximadamente 828 milhões de adultos em todo o mundo são afetados pelo diabetes, sendo mais de 90% dos casos de diabetes tipo 2, condição associada a um alto risco de doença cardiovascular. Nas diversas diretrizes sobre o tratamento do DM2 é recomendado a avaliação do risco cardiovascular, sendo esse parâmetro fundamental na escolha da melhor opção terapêutica. Os agonistas do GLP1 e os inibidores do SGLT2 se posicionaram como terapias de primeira linha, principalmente pela redução na incidência de eventos cardiovasculares.

O estudo SOUL, publicado no New England Journal of Medicine, investigou os efeitos da semaglutida oral em pacientes com diabetes tipo 2 que apresentavam doença cardiovascular aterosclerótica, doença renal crônica ou ambas as condições. Como um agonista do receptor de GLP-1 em formulação oral, a semaglutida oferece uma alternativa conveniente aos tratamentos injetáveis, com potencial para melhorar a adesão ao tratamento e os desfechos clínicos em uma população vulnerável.

O estudo SOUL recrutou 9650 pacientes acompanhados por um período médio de 49,5 meses. Os pacientes tinham idade ≥ 50 anos (media: 66,1), diabetes tipo 2 com hemoglobina glicada de 6,5 a 10,0% (média: 8% ). A amostra foi randomizada para uso de semaglutida oral (titulada até a dose máxima, 14 mg) ou placebo, adicionada ao tratamento padrão. O desfecho primário foi o de eventos cardiovasculares maiores (MACE - uma combinação de morte cardiovascular, infarto do miocárdio não fatal ou acidente vascular cerebral não fatal), avaliados em uma análise de tempo até o primeiro evento. Os desfechos secundários confirmatórios incluíram eventos renais.

Os resultados do estudo SOUL demonstraram que a semaglutida oral foi eficaz na redução do MACE. Um evento primário ocorreu em 579 dos 4825 participantes (12,0%; incidência, 3.1 eventos por 100 pessoas-ano) no grupo de semaglutida oral, em comparação com 668 dos 4825 participantes (13,8%; incidência, 3,7 eventos por 100 pessoas-ano) no grupo placebo (razão de risco, 0,86; p=0,006). A maior diferença observada foi na incidência de IAM (razão de risco 0,73) Os resultados para os desfechos secundários confirmatórios não diferiram significativamente entre os dois grupos. O grupo semaglutida alcançou níveis mais baixos de HbA1c (7,2 vs 7,8%), maior redução de peso (-3kg) e de PCR (-0,4mg/L). A incidência de eventos adversos graves foi 47,9% no grupo semaglutida oral e 50,3% no grupo placebo; a incidência de distúrbios gastrointestinais foi de 5,0% e 4,4%, respectivamente. A taxa de descontinuação foi maior no grupo semaglutida (15,5 vs 11,6%).

Uma análise pré-especificada do estudo SOUL, publicada na revista Circulation, examinou a redução dos desfechos de acordo com o uso prévio de inibidores de SGLT2 (iSGLT2). Os iSGLT2 são conhecidos por seus benefícios cardiovasculares e renais, e os resultados mostraram que a semaglutida oral proporcionou vantagens adicionais mesmo em pacientes já tratados com esses medicamentos. Essa descoberta sugere um efeito sinérgico entre as duas classes, potencializando a proteção cardiovascular e renal.

O estudo SOUL destaca a semaglutida oral como uma opção terapêutica valiosa para pacientes com diabetes tipo 2 de alto risco cardiovascular ou com doença renal crônica. Superando os resultados de não inferioridade do PIONEER 6, o SOUL demonstra benefícios claros na redução de eventos cardiovasculares, enquanto a análise pré-especificada sugere que sua combinação com iSGLT2 pode ampliar ainda mais esses efeitos. Esses achados têm implicações importantes para a prática clínica, oferecendo uma estratégia eficaz e conveniente para melhorar os desfechos de saúde nessa população.